Módulo 1 - 2a. aula – Arte e criatividade

 


Módulo 1 - 2a. aula – Arte e criatividade

Meu nome é Mauricio Duarte. Sou designer gráfico, ilustrador, artista visual, escritor, poeta e romancista. Hoje quero abordar o tema da criatividade. Será que só existe criatividade na arte e no design? Alguns diriam que é o que mais falta na arte e no design contemporâneos da pós-pós-modernidade. Mas vamos nos ater, inicialmente, ao assunto de forma menos polêmica ou crítica.

A rigor, todos podem ser criativos, em qualquer atividade e em qualquer tempo. Artistas e designers não são monopolizadores desta característica humana. Mas qual a dinâmica da criatividade? Qual é a sua mecânica, qual é o seu processo? O momento da criatividade é constituído, geralmente, de etapas diferentes umas das outras e subsequentes. A fagulha de inspiração, o insight ou a iluminação com a qual resolvemos um problema, visualizamos uma imagem do que estávamos buscando (talvez há muito tempo) é uma dessas etapas. Porém, antes dela, normalmente, vem a coleta de dados, a partir da qual coletamos tudo relacionado à questão. Deixando a mente fervilhar com essas informações para chegar à segunda etapa: a incubação, ou o “cozinhar” da ideia, “dormir” sobre a questão, trabalhando o inconsciente. Depois o devaneio, ou a cartase ou o brainstorm no qual tudo explode em profusão de caminhos e soluções, durante, muitas vezes, uma atividade que nada tinha a ver com o problema determinado.

Após estas etapas vem a iluminação, o insight (que pode demorar ou não). Aquela sensação de “é isto!”. Tornar realidade e expressar o que pretendíamos vem a partir daí.

A arte-enlevo, abordagem de análise estética e filosófica, pretende usar a criatividade em altos níveis. Isto implica em autenticidade. Em geral, existem nas mídias, certas “ondas”, ou modas, nas quais se esgarça um estilo x ao seu ponto máximo a partir de um revival ou styling. Mas ser autêntico tem pouco a ver com “ondas” ou modas. Muitos – ou poucos – podem dizer que o próprio design, por exemplo, é o estilo da nossa época. Só mais um estilo – ou “o” estilo preponderante – e não um campo de conhecimento realmente válido em qualquer época ou era, como a arquitetura ou a arte. No entanto, esse argumento não invalida nem uma coisa nem outra. Porque a arte e a arquitetura antigas se reformularam tão profundamente e tão essencialmente, que pouca relação têm com a arquitetura de hoje, sendo o mesmo válido para a arte, em todas as suas formas.

Criatividade, nesse sentido, é esforço coletivo, no caso do design, por exemplo, responde a pequenos grupos de trabalho e a projetos muito específicos e por tempo limitado. Diferente da publicidade e do marketing, para citar uma atividade onde se utiliza mais fortemente a criatividade, mas que pode responder bem a equipes de trabalho muito numerosas por tempos maiores (a conta da agência nas várias campanhas publicitárias ou todo o processo de pesquisa de marketing até a sua adequação final).

Grupos criativos são, desse modo, a tônica do nosso tempo (século XXI), conforme coloca Domenico De Masi. A fantasia e a concretude se entrelaçam em diversos tipos de utilização da criatividade, segundo o autor. Construir um palácio não é escrever uma poesia. Ambos exigem criatividade, mas o poema, é eminentemente individual enquanto o palácio demanda enormes confluências de inúmeros cérebros, escultores, arquitetos, ourives e tudo quanto for necessário.

Ser autêntico, portanto, é balancear fantasia e concretude de modo a expressar excelentemente a obra, seja artística ou não. Para isto, se faz mister atrelar também conteúdo e forma a fim de “crear” e não apenas criar, como coloca o proeminente filósofo Huberto Rohden. “Crear” é, a um só tempo, ser original para consigo mesmo – antes de qualquer coisa – e para os outros – que a comunidade receba a obra positivamente faz parte de todo processo – na relação que é contra a corrente, fora de moda, se for o caso, se for da consciência do inventor ou artista. As “ondas” ou modas, ou estilos, são passageiros, mas o Templo de Deus é eterno. “Crear”, assim, é aproximar sua obra da obra de Deus, ciente de que a consciência precede a ciência e a tecnologia. E que a nossa consciência esteja em um nível acima do nível da tecnologia ou da ciência que usamos/desenvolvemos. Só a partir daí, não seremos manipulados pela tecnologia, mas seremos nós, a usarmos. “O engenho sem exercício, estraga.” E é verdade. Ou a criatividade é usada em sua plenitude ou, com o passar do tempo, não será usada nem nas pequenas porções que havia sido utilizada. Porque a musa inspiradora é vaidosa. Exige atenção, devoção, amor. Enfim, ou o trabalho é completo e criativo – forma e conteúdo – ou nunca será criativo e talvez nem se complete. Abraço grande.


Bibliografia consultada:


O Espírito Criativo . Daniel Goleman, Paul Kaufman, Michael Ray . Cultrix . São Paulo . 2009.


Filosofia da Arte . A metafísica da verdade revelada na estética da beleza . Huberto Rohden .

Martin Claret . São Paulo . 2007.


Criatividade e grupos criativos . Domenico De Masi . Sextante . Rio de Janeiro . 2003.

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